Entrevista a Ricardo Rocha: “Braga é especial para mim, mas a minha preferência vai para o Benfica”

Em entrevista ao Grande Círculo, Ricardo Rocha, central que passou pelo SC Braga e Benfica, antevê um jogo complicado para a equipa de Jorge Jesus no terreno dos minhotos. Não escondendo que ´torce´ pela equipa de Jorge Jesus, acredita que os Guerreiros do Minho podem atingir, no mínimo, o 4º lugar e recorda com carinho o dia em que ´secou´ Ronaldinho Gaúcho.

Diz-se que este Benfica é ‘suficiente’ para o campeonato, mas que se nota alguma falta de opções no plantel nos jogos das competições europeias. É dessa opinião?

RR: O Benfica começou a época com muitas mudanças, se calhar muitos esperariam uma equipa com mais dificuldades, mas a Ricardo Rocha_Benficaverdade é que, neste momento, é líder e ainda não perdeu qualquer jogo. Houve, no defeso, uma decisão – se calhar necessária – de vender jogadores importantes e fazer um encaixe financeiro considerável, mas o Benfica continua, mesmo assim, com uma grande equipa. Nas competições europeias, a competitividade e nível das equipas é superior, mas acho que nesta época, se calhar, o Benfica terá mais dificuldades do que nas últimas épocas. Todos sabemos que não é fácil competir com as grandes equipas das melhores ligas, onde estão os melhores jogadores, mas o Benfica tentará sempre fazer e dar o melhor.

Enquanto antigo central e ex-colega de Luisão, parece-lhe que, com a saída de Garay, ficou a faltar ao Benfica contratar um complemento para o capitão?

RR: Penso que não. Luisão é um grande jogador com uma experiência muito grande e o Benfica tem, no seu plantel, jogadores com muita qualidade, que poderão aprender e fazer uma boa dupla com ele. Se fizermos uma retrospectiva, ao longo dos anos têm sido vários os jogadores a jogar a seu lado e todos eles foram vendidos e fizeram grandes épocas no Benfica. Por isso, acredito que qualquer um dos centrais que fazem parte do plantel do Benfica, jogando ao lado do Luisão, estará a um grande nível.

O SC Braga, depois da boa exibição no Dragão, terá potencial para vencer o Benfica? Até porque Braga, na última década, tem sido um terreno muito complicado para os encarnados…

RR: O Braga é sempre um adversário difícil, especialmente jogando em casa. É, sem dúvida, um estádio complicado para todas as equipas, principalmente os grandes, onde a motivação e a vontade de ganhar são maiores. Com a ambição que têm de voltar ao topo e jogando perante os seus adeptos, não será um jogo fácil para o Benfica.

Vê este Braga com capacidade para se intrometer entre Benfica, Porto e Sporting nesta época (até aproveitando o facto de não ter competições europeias) ou o 4.º lugar, objectivo apontado no início da temporada, está de bom tamanho, sobretudo depois da época passada ter ficado muito aquém das expectativas?

RR: É importante para a Liga Portuguesa um Braga a competir pelos lugares da frente. A competitividade, que é essencial para a Ricardo Rocha_Bragaliga crescer e ser melhor, não se deve resumir apenas aos três grandes e o Braga tem feito muito por isso nos últimos anos. Com o sucesso nas competições europeias e pelo facto de lutar pelos lugares da frente nos últimos anos, o Braga possui, neste momento, um estatuto diferente do que tinha antigamente. Apesar de uma época menos boa no ano passado, certamente que a aposta este ano é que o Braga regresse, no mínimo, ao 4.º lugar e fique o mais próximo possível dos primeiros.

Tem alguma preferência para este embate, tendo passado, com sucesso, por ambos os clubes?

RR: O Braga é um clube especial para mim, deu-me a oportunidade de crescer e evoluir como jogador, mas o Benfica é o clube do meu coração. Por isso, nestes embates, a minha preferência vai sempre para o Benfica.

Um jogo que ficou na memória dos adeptos do futebol foi aquele Benfica-Barcelona, em 2006, em que o Ricardo Rocha ‘secou’ o Ronaldinho. Que recordações guarda desse jogo? Num sentido mais geral, sentia-se bem na posição de lateral, uma ‘insistência’ de Koeman nessa época?

RR: Esse jogo foi fantástico e ficará para sempre na minha memória. O ‘mister’ Ronald Koeman gostava imenso de mim, mas ricardo rocha_ronaldinhonessa época chegou o central brasileiro Anderson, que estava a um nível muito alto. Embora o ‘mister’ alternasse entre mim e o Anderson a central, com a lesão do Nélson, faltavam opções naquela posição e, embora com dúvidas, Koeman chamou-me ao gabinete e disse que ia apostar em mim a lateral-direito no jogo antes da Champions, para a Liga, precisamente com o Braga. Como a experiência correu bem, tive a oportunidade de defrontar o melhor jogador do mundo na altura, Ronaldinho Gaúcho. Lembro-me perfeitamente na altura de tanto adeptos, como comentadores dizerem que era um erro eu jogar, que ao fim de 10 minutos seria expulso. A verdade é que fiz um grande jogo, sem cartões e sem uma única falta feita. Foi uma oportunidade de provar o meu valor e aquilo que poderia fazer. Apesar de termos sido eliminados nos quartos-de-final, deixámos uma boa imagem e o Barcelona até acabou por vencer a Champions nesse ano.

Outro jogo marcante na sua carreira foi a visita a Braga, ao serviço do Benfica, em Novembro de 2006. Apesar da derrota por 3-1, foi considerado dos melhores em campo, marcou o seu primeiro golo ao serviço dos encarnados e suportou os muitos assobios dos adeptos arsenalistas. Como viveu este misto de emoções num só dia? E que explicações encontra ricardo rocha_2006para a relação conturbada com os associados do clube minhoto?

RR: Esse Benfica-Braga de 2006 foi muito difícil. Nesse jogo específico, comecei a ser insultado desde o aquecimento e aquilo ficou-me na cabeça, porque não entendia o porquê daquele tratamento dos adeptos. Sempre fui honesto, profissional e o clube ganhou financeiramente com a minha venda, por isso nunca entendi o ambiente hostil relativamente à minha pessoa. Quando marquei o golo, ainda por cima já eram quatro anos sem marcar, explodi completamente, sendo bem visível nas imagens o que disse, porque estava realmente magoado com os insultos que me eram dirigidos naquele jogo e em todos os outros que lá joguei pelo Benfica.

“Tudo é diferente na Premier League e em Inglaterra. A pressão é muito grande.”

 

Saiu do Benfica para o Tottenham em 2007 e teve possibilidades de jogar na Premier League, considerada por muitos a Liga mais espectacular do mundo. Quais as principais diferenças que encontrou nos métodos de trabalho?

RR: A mudança para o Tottenham foi muito difícil, muito mais do que esperava. Pensei que estava preparado, que a adaptaçãoricardo rocha Tottenham seria fácil e, devido à pressão que o clube fez para me contratar, pensei que realmente precisavam de mim. Tudo é diferente, quer na Premier League, quer em Inglaterra, e a pressão é muito grande. O jogo tem uma intensidade enorme, o futebol é muito físico, os árbitros deixam jogar, praticamente não treinamos, porque o calendário é muito grande, com campeonato, FA Cup e Taça da Liga. Os adeptos são incansáveis no apoio aos jogadores e, na maior parte das vezes, são eles os grandes motivadores. É uma liga fantástica, em que tudo pode acontecer, o jogo só termina quando o árbitro apita, porque os adeptos e os jogadores acreditam sempre que é possível até ao último segundo.

No entanto, a experiência no clube londrino não foi a melhor: fez apenas 18 jogos as serviço dos Spurs. Quais os motivos para tão pouca utilização?

RR: Infelizmente, não joguei muito e fiquei muito desiludido com isso. O investimento no clube era grande, as exigências e a pressão enormes para chegar aos primeiros lugares, como ainda hoje acontece. Foram várias as mudanças de treinador, tive uma lesão grave num tornozelo, que me deixou de fora por vários meses e que me prejudicou bastante. Tive imensos convites para jogar em grandes clubes da Europa, inclusive em Portugal, mas – e ainda hoje não sei o porquê -, foram sempre rejeitados pelo Tottenham, onde acabei por ficar, obrigatoriamente, até terminar o meu contrato.

Depois de uma curta passagem pelo Standard Liège, regressou a Inglaterra e ingressou no Portsmouth, onde viveu momentos de glória, mas também presenciou a hecatombe do clube. Como viveu toda a ´confusão´, que acabou com a descida da equipa à League Two?

RR: Na altura tive várias sondagens de clubes, mas todos estavam reticentes devido à minha pouca utilização no Tottenham e ricardo rocha_portsmouthpelo facto de, após a minha lesão, não ter efectuado qualquer jogo oficial. Quando apareceu a proposta do Standard, decidi aceitar, porque é um grande clube na Bélgica, jogava pela primeira vez na sua história na Champions League e o treinador era o ‘mister’ Boloni e o adjunto era o professor Rolão Preto, que me conheciam dos seus tempos do Sporting. Foi novamente uma adaptação muito difícil: a língua, o facto de, fisicamente, não estar ao mesmo nível dos restantes jogadores, a circunstância de ser um plantel jovem e a questão de eu ser mais utilizado a lateral esquerdo do que a central. Quando surgiu a oportunidade de regressar à Premier League, em Janeiro, não podia desperdiçar. O Portsmouth era, na altura, um clube em dificuldades, quer financeiras, quer desportivas, mas não podia desperdiçar a oportunidade de regressar a Inglaterra e provar que realmente tinha valor para jogar. E a maior oportunidade que tive foi jogar a meia-final da FA Cup, em Wembley, contra a minha anterior equipa, o Tottenham. Graças a Deus, ganhámos o jogo por 2-0 e eu fui considerado o melhor jogador em campo, o que me deu uma satisfação do outro mundo! Relativamente ao Portsmouth, foram tempos muito difíceis, mas é um clube fantástico, com uns adeptos extraordinários. Infelizmente, a gestão danosa por parte de vários supostos investidores relegou o clube para a League Two. Sendo agora controlado pelos próprios adeptos, só lhes desejo o melhor e que voltem ao topo do futebol Inglês o mais rapidamente possível.

“Ainda posso ser uma mais-valia no mundo do futebol”

 

No Benfica, chegou a ser treinado por Fernando Santos, actual seleccionador nacional. Considera que é o homem certo para levar Portugal ao sucesso no Euro 2016?

RR: Fernando Santos é um grande treinador. Com ele, em seis meses, fiz a minha melhor época no Benfica e fui transferido para o Tottenham, embora ele não quisesse! Era um desejo seu treinar a Selecção e espero que tenha o maior sucesso possível, porque é uma excelente pessoa, que admiro muito.

Ao longo da carreira venceu um título de campeão nacional, em 2004/05, uma Taça de Portugal, em 2003/04, e uma Supertaça, em 2004/05. A juntar a isso, foi à final da FA Cup e conta com 6 internacionalizações pela Selecção. Em jeito de balanço, considera que o seu percurso enquanto jogador profissional foi ao encontro das expectativas que tinha estabelecido?Ricardo Rocha_Selecção2

RR: Sem dúvida que a minha carreira ultrapassou as minhas expectativas. Acho que aquela fase difícil no Tottenham poderia ter sido muito diferente e até ter jogado noutras grandes Ligas e grandes equipas, mas todos os meus sonhos e objectivos foram cumpridos, graças a Deus. Joguei, mesmo que pouco, na considerada melhor Liga do mundo, a Premier League. Tive a oportunidade de jogar a final da FA Cup, em Wembley, com 90 mil pessoas. Joguei no maior clube de Portugal e clube do meu coração, o Benfica. Fui campeão nacional, venci a Taça de Portugal e a Supertaça, algo que jamais vou esquecer e ficará para sempre. Tive ainda a honra, o orgulho e o prazer de representar o meu país, sendo internacional em seis ocasiões. Agradeço a Deus por tudo aquilo que consegui e conquistei!

O que é feito do Ricardo Rocha, depois de a aventura em Inglaterra ter terminado? Continua ligado ao futebol?

RR: Neste momento ainda não tenho projetos de futuro. Embora tenha 36 anos, ainda me sinto motivado, muito bem fisicamente e preparado para continuar a jogar, mas sei que é algo muito difícil e complicado de acontecer. Tenho pensado muito no que quero fazer, mas claramente algo relacionado com o futebol. É a minha vida, continua a ser a minha paixão e acho que, por todo o percurso que tive, tudo aquilo que conquistei, e a experiência que adquiri ao longo da minha carreira, posso ser uma mais-valia no mundo do futebol.

Entrevista realizada por João Lobo Monteiro e Daniel Lima | joaolobomonteiro@gmail.com e daniellima207@gmail.com

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