Entrevista a Elpidio Silva: “João Loureiro riu-se na minha cara quando disse que íamos lutar pelo título”

Em entrevista ao Grande Círculo, Elpidio Silva, avançado que se sagrou campeão nacional pelo Boavista e passou uma época pouco feliz em Alvalade, considera que o Sporting é favorito para o duelo de Sexta-feira, mas acredita que os axadrezados vão ´vender cara a derrota´. O Pistoleiro recordou ainda o tempo em que até João Loureiro se riu na sua cara quando disse que o Boavista ia lutar para ser campeão nacional e garante que quando jogou com Cristiano Ronaldo, em 2003/2004, já antevia que se ia tornar um jogador ´de outro planeta´.

Bruno de Carvalho, presidente do Sporting, apontou o título nacional como objectivo no início da época. Vê neste Sporting capacidade para conquistar o primeiro lugar no campeonato?

ES: Ainda só tive oportunidade de ver dois jogos do Sporting, um deles a contar para a Liga dos Campeões. Dá para ver que Elpidio Silvaestão a colocar muita força no regresso do Nani, mas, na minha opinião, neste momento o Porto e o Benfica são superiores ao Sporting. Mas não deixa de ser uma equipa forte e vai certamente ser uma boa briga até final da temporada, até porque o título é algo que o Sporting procura há muito tempo.

Considera que o Sporting está bem servido de avançados? Entre Slimani e Montero, qual o que lhe enche mais as medidas?

ES: São jogadores diferentes. Do que vi dos jogos do Sporting, o Slimani é um homem de área e o Montero sai mais um bocado. Acho que o Slimani é um jogador que se identifica mais com a forma de jogar do Sporting.

O Boavista regressou este ano ao escalão principal depois de um período muito conturbado na vida do clube. Terá este plantel condições para se manter na primeira liga?

ES: Se o Boavista conseguir ficar na primeira liga é o mesmo que ser campeão. O clube esteve muito tempo fora, passou por muitas remodelações, é tudo novo e tem as dificuldades do campo sintético. Se o Boavista ficar na primeira divisão, e espero que fique, é um grande premio para o grupo.

Tem o Boavista condições para travar o Sporting? E tem alguma preferência para este embate, tendo passado por ambos os clubes?

ES: O Sporting é sempre um grande clube, por onde passei e não tive muita sorte, ao contrário do que aconteceu no Braga, Elpidio Silva2Boavista e Guimarães. Quando cheguei ao Sporting tive uma lesão grave na cabeça e não consegui mostrar o meu trabalho. Vocês conhecem o Boavista no Bessa, é um clube guerreiro e que coloca muitas dificuldades, principalmente aos grandes. É um jogo de detalhe. O sporting leva vantagem porque tem um plantel muito mais forte, mas o Boavista vai vender cara a derrota. Torço pelo Boavista porque passei mais tempo no Bessa e identifico-me mais com o clube, onde me sagrei campeão e fiz três épocas espectaculares. Foi o local onde fui mais feliz.

Enquanto companheiro de Petit, actual treinador do Boavista, antevia que o ex-médio defensivo podia seguir a carreira de treinador?

ES: O Petit, o Pedro Emanuel ou o Paulo Turra, eram jogadores que estavam nesse tempo no plantel e que se via que tinham que tinham perfil para treinador. Desejo ao Petit a maior sorte do mundo, a situação em que apanhou o Boavista agora não é fácil, as arbitragens também não ajudam e o Petit tem uma missão muito difícil até final da temporada.

“Até o Presidente do Boavista se riu na minha cara quando disse que íamos lutar para ser campeões”

 

Quando saiu do SC Braga para o Boavista, alguma vez pensou que se poderia tornar campeão nacional logo na época seguinte? Como explica que um clube fora dos três grandes se tenha conseguido sagrar campeão nacional?

ES: Quando cheguei ao Boavista e vi o plantel, logo na primeira entrevista que dei disse que íamos brigar para sermos Boavista campeãocampeões nacionais. Muita gente gozou comigo e riu-se na minha cara, inclusivamente o Presidente do Boavista, João Loureiro, com quem fiz uma aposta e ganhei muito dinheiro. O grupo era muito bom, com dois jogadores de nível e qualidade para cada posição. Era um grupo coeso, unido e com um treinador que puxava muito pela gente.

Um dos momentos mais marcantes da sua carreira foi certamente o golo obtido em Anfield Road, ao serviço do Boavista, para a Liga dos Campeões, num jogo que acabou empatado 1-1. Que recordações guarda desse jogo, ainda por cima disputado no dia 11 de Setembro de 2001, data do atendado que provocou a queda das Torres Gémeas?

ES: Na minha vida digo sempre que as coisas aconteceram em dias e horas difíceis. No dia em que jogamos contra o Liverpool tinha havido o atentado, mas a partida ainda se realizou e marquei logo no meu primeiro jogo na Liga dos Campeões. Foi o início de um ano espectacular no Boavista, onde fiz 4 golos na Champions e conseguimos passar à segunda fase.

Em 2002/2003, estiveram a um pequeno passo de chegar à final da Taça Uefa, mas a derrota por 0-1 no Bessa frente ao Celtic deitou tudo a perder. O golo de Henrik Larsson ainda o atormenta durante a noite?

ES: Não é tanto o golo que sofremos que me atormenta. Nesse jogo, o Boavista teve duas oportunidades de golo e as duas foram comigo. Quando vejo com o meu filho o DVD desse jogo e passam esses lances, eu não consigo ver. Foram os dois de cabeça, num deles a bola teve quase a entrar. Foi um dos meus piores jogos em termos de resultado e ainda hoje não consigo rever essas imagens.

No Sporting marcou apenas cinco golos em 32 jogos. Quais as razões para tão pouca produtividade?

ES: Além da minha lesão, houve jogos em que não tive muita sorte, acertei muitas bolas no poste. Mas agradeço muito a experiência no Sporting, até porque depois dessa época fui para o Guimarães, onde fiz uma temporada espectacular. Houve um Guimarães – Sporting que foi dos melhores jogos que fiz pelo Vitória e deixei o Guimarães nas competições europeias nove épocas depois. Foram momentos muito bonitos que guardo no coração e é por isso que sempre que volto a Portugal sou muito bem recebido nos clubes por onde passei.

Por curiosidade, marcou frente a Braga e Boavista em Alvalade, dois antigos clubes. Qual o sentimento de ´facturar´ frente às suas ex-equipas?

ES: Quando estava no Boavista também marquei ao Braga. Às vezes sente-se felicidade, outras vezes tristeza. Lembro-me que em Guimarães, na época em que o Vitória se qualificou para a Taça Uefa, tivemos um jogo decisivo frente ao Boavista onde passei a bola ao Romeu para fazer golo, e senti-me triste mas ao mesmo tempo feliz porque fazia nove anos que o Guimarães não ia às competições europeias. Nesse dia fiz um jogão, o Guimarães venceu e voltou à Europa. Também sofri muito com os anos que o Boavista passou fora da primeira liga, mas agora ver o clube de regresso é recompensador.

“Conversava muito com o Cristiano Ronaldo e sentia que ele era de outro planeta”

 

Enquanto jogador do Sporting, foi uma das testemunhas da ascensão de Cristiano Ronaldo, quando o actual melhor jogador do mundo tinha apenas 18 anos. Já nessa altura se adivinha que estava ali um diamante em bruto?

ES: O Ronaldo sempre foi diferente em tudo, trabalhava musculação, chegava cedo para trabalhar. A gente via no Ronaldo uma sporting 2003_2004estrela, eu conversava muito com ele e sentia que era de outro planeta. Para mim será novamente o melhor jogador do mundo de 2014. É um jogador completo, tanto cabeceia como chuta com o pé esquerdo ou direito, como dribla de qualquer maneira, certamente ficará na história do futebol português e mundial.

Durante a sua temporada no Sporting foi treinado por Fernando Santos, actual seleccionador nacional. Considera que é o homem certo para levar Portugal ao sucesso no Euro 2016?

ES: Com certeza. Acompanhei a selecção portuguesa no campeonato do mundo e acho que o Paulo Bento deixou jogadores de alto nível fora da selecção, jogadores muito experientes, como o Ricardo Carvalho, Bosingwa, Quaresma…O Fernando Santos é o homem ideal para a selecção portuguesa neste momento, um treinador sério e trabalhador. Agradeço muito o apoio que me deu no Sporting e foi das únicas pessoas que, quando fui submetido a uma cirurgia na cabeça, me foi visitar. Desejo-lhe sorte na selecção, como tem vindo a ter, e que leve ´na raça e no peito´. É uma pessoa com forte componente humana, muito bom e muito sério, que incentivava muito antes dos jogos e não gostava de brincadeiras nesse período.

Apesar de mais conhecido por ter jogado no Boavista e no Sporting, também no Minho o Silva deixou a sua marca. Foi, aliás, no Sporting de Braga que estabeleceu o máximo de golos numa época, com 17 golos…

ES: Foi a minha primeira época em Braga e em Portugal e foi espectacular, quando ainda ninguém me conhecia. Fiz muitos golos na liga, na Taça uefa e na Taça de Portugal. Na segunda época tive uma pubalgia e não consegui dar sequência, mas ainda assim foi uma época até boa. Está tudo gravado na minha memória e agradeço ao pessoal de Braga por me ter dado a oportunidade da europa inteira e o mundo me conhecerem.

O que é feito actualmente do Elpídio Silva? Um regresso a Portugal para trabalhar no futebol está nos seus planos?

ES: Trabalho na área do futebol no Brasil, criei a Escola de Futebol Elpídio Silva, um projecto social com crianças que já leva mais de cinco anos. Vou estar no final de Dezembro em Portugal para tentar arranjar parcerias com os clubes, para quando formar jogadores jovens os levar para Portugal. Vou sentar-me com o João Loureiro e todos os clubes interessados para fazermos este trabalho. Já tenho jogadores preparados para fazer experiências em Portugal, especialmente o meu filho, Lucas Silva, avançado de 13 anos. Eu sempre lhe digo que na finalização e cabeceamento é muito melhor que eu naquela idade. É um avançado parecido comigo a jogar, protege bem a bola, chuta forte, cabeceia bem, é muito alto. Tem grande potencial e se Deus quiser ainda vamos ouvir falar muito dele.

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