Entrevista a Jorge Paixão: “Não ir ao Jamor pelo SC Braga foi uma decepção muito grande”

Estivemos à conversa com Jorge Paixão, técnico de 50 anos que assumiu o desafio de manter o Mafra na II Liga, após a passagem pelo Farense ter terminado precocemente por divergências com o Presidente quanto aos objectivos estabelecidos pelo clube nesta temporada. O treinador falou sobre a decepção que sentiu por não ter conseguido chegar ao Jamor, em 2014, ao serviço do SC Braga, anteviu um equilibro entre os três grandes na luta pelo titulo e considerou que os arsenalistas foram a equipa que, na primeira volta do campeonato, melhor futebol apresentaram.

Estamos no início da 2ª volta e o campeonato português está ao rubro. Pelo que conhece de Jorge Jesus, que foi seu treinador no Amora ainda no início de carreira, considera que a experiência do técnico bicampeão português pode ser decisiva para levar o título para Alvalade?

Jorge Paixão: A experiência é sempre importante, mas não é só pela experiência. Pelo trajecto que fez na 1ª volta, jp2pela solidez demonstrada em termos dos três grandes, o Sporting foi a equipa que teve maior equilíbrio e por isso está à frente, e estando à frente é logico que aí sim, a experiência poderá ter um pouco de influência. A 2ª volta antevê-se que seja competitiva, porque o Porto mudou de treinador e tem técnico também experiente e de qualidade, com um plantel forte mas que não estava dentro do expectável no início de época. O Benfica tem vindo em crescendo e é uma equipa que, tendo um treinador menos experiente, tem uma equipa em si experiente, o que muitas vezes é importante quando o técnico não tem tanta experiência, permitindo equilibrar as coisas. Antevejo grande indefinição até à parte final do campeonato, não me parece que fique resolvido antes. Vamos entrar numa fase em que vai haver grande aglomeração de jogos para estas equipas, porque estão todas nas competições europeias, e a força mental e a forma como irão gerir o stress competitivo poderá fazer a diferença.

O Sporting foi a equipa que melhor futebol apresentou na 1ª volta, tendo vencido com clareza os duelos directos com os principais rivais. Considera que daqui para a frente os leões vão conseguir manter este ascendente exibicional?

JP: A equipa que melhor futebol apresentou na 1ª volta foi o SC Braga, não foi nenhum dos grandes. Foi o conjunto que inequivocamente teve mais qualidade de jogo, com uma ideia bem definida e executada pelos seus jogadores. O Sporting, para mim, não fez tanto a diferença em termos de qualidade de jogo, mas sim intensidade de jogo, em que acabou por se distanciar dos outros dois grandes. É a imagem de Jorge Jesus, a intensidade que coloca nas acções, principalmente em termos ofensivos, e que surpreendeu os adversários. Acredito que o Benfica, com o nível exibicional e resultados que tem atingido ultimamente, e o Porto, com Peseiro e uma ideia diferente de jogo, mais vocacionada para praticar um futebol ofensivo, vão equiparar as coisas a nível exibicional. Mas ai a referência é o SC Braga, a equipa que melhor futebol praticou, de grande vocação ofensiva e que trouxe algo novo ao futebol português, porque há ali duas ou três nuances que acabam por mexer um pouco com o que estava mais ou menos estipulado, e faz perceber que muitas vezes os treinadores ficam agarrados aos sistemas, mas mais importante que os sistemas – e isto fica provado no SC Braga, embora já se soubesse que era assim – é a dinâmica do próprio sistema. Nesse aspecto, o Braga foi a equipa que esteve no topo nesta primeira volta.

“Treinei o SC Braga numa fase de grande instabilidade, com situações que não favoreceram o êxito”

 

Apesar de só ter passado alguns meses no SC Braga, o Jorge Paixão parece ter ficado fortemente ligado ao SC Braga e aos seus adeptos, manifestando-se várias vezes, nas redes sociais, como um “guerreiro do Minho”. Por quê esta ligação especial?

jp3JP: É um clube com que me identifico, foram só 5 meses mas intensos em que me identifiquei com o espírito, tanto dos adeptos como do Presidente. Foi uma grande oportunidade e um prazer para mim. Se calhar não foi a melhor altura, apanhei o clube numa fase de transição, o Braga estava numa situação de grande instabilidade ao nível do plantel como nunca tinha estado nestes últimos anos. O plantel tinha sofrido muitas alterações no mercado de Janeiro, eu entrei em Fevereiro, tinham saído muitos jogadores e entrado jogadores novos que tinham de se adaptar ao futebol português, outros acabaram por não vingar. Tinham saído jogadores importantes, sendo que 2 ou 3 deles regressaram na época a seguir – foram emprestados e depois voltaram. Houve uma serie de situações que não favoreceram o êxito, agora é obvio que também tive responsabilidades, os treinadores muitas vezes procuram fugir um bocado às suas responsabilidades, mas todos as temos e também as tive no insucesso que me tocou. Mas foi uma experiencia muito importante para mim, que me fez crescer enquanto homem e treinador, e depois criei esta identificação com o clube e com a forma como a massa associativa vive o clube, dai eu me considerar um guerreiro. Tenho a consciência tranquila de que, dentro do que podia fazer e dependia de mim, fiz tudo; mas quando se tomam decisões às vezes também se erra.

O discurso mais emotivo que fez enquanto treinador do SC Braga foi precisamente em Vila do Conde, após o jogo da 2ª mão que ditou a eliminação da Taça de Portugal. O que lhe ia na cabeça nesse momento em que os Bracarenses viram ruir o sonho de chegar ao Jamor nessa época?

JP: A minha passagem pelo Braga ficou marcada pela meia-final da Taça de Portugal. Foi uma decepção muito grande, é um sonho para qualquer profissional ir ao Jamor. Tinha criado uma grande expectativa de que era possível irmos. Empatamos em casa, 0-0, na 1º mão e estava tudo em aberto. Tivemos inclusive alguma infelicidade, podíamos ter ganho o jogo. Veja-se que eu cheguei a ter 11 jogadores lesionados, lembro-me que fui jogar com o Olhanense e do 11 onze inicial que tinha jogado na 1ª volta, penso que 9 estavam lesionados. Às vezes há coisas que não se dizem – porque quando um treinador não tem força na imprensa, essa pouca força acaba por se revelar em algumas situações – mas o facto é que, em 10 jogos do campeonato e 2 de Taça de Portugal, utilizei 27 jogadores, o que não é normal e logo por aí se vê a instabilidade e problemas que havia no plantel. E desses, 7 eram da equipa B, jogadores que nunca mais jogaram na equipa A e nenhum deles ficou nos A no ano seguinte – inclusive alguns deles já saíram do clube. A 2ª mão da meia-final coincide com uma altura de fraqueza da equipa, tinha vários jogadores lesionados, fomos para Vila do Conde com o Rafa, que tinha acabado de ser integrado vindo de lesão; o Alan tinha sido integrado vindo de lesão e o Éder vinha de uma paragem de 5 meses, só para referir os 3 que tinham estado mais tempo parados. Depois faltavam-me mais alguns jogadores importantes e as coisas foram difíceis. O Rio Ave teve tempo para preparar essa 2ª mão, no domingo anterior não jogou com nenhum jogador titular, actuou com uma equipa secundária com o Olhanense e até perdeu. Nós tivemos de jogar com o FC Porto, o que é logo uma coisa diferente. Acho que o Braga, ao jogar contra o Porto, não me permite apresentar uma equipa secundaria, não ia levar a equipa B porque é o Braga contra o Porto. Tenho de apresentar a equipa mais forte e não tinha soluções para fazer poupanças.

Agora acredito que num jogo desses tínhamos de ir buscar forças onde não tínhamos e fazer daquilo o jogo da vida, é jp4um bocado forte mas era o que pensava, e não fizemos. Tivemos alguma infelicidade na forma como sofremos os golos e no fim o meu sentimento era de frustração, porque acreditei até ao fim. A perder 2-0 tive sempre o sentimento de que podíamos empatar 2-2 e passar a eliminatória, que um golo podia mudar tudo. No fim tinha esse sentimento de frustração porque não ia ao Jamor, que era um sonho, e porque a minha continuidade também dependia muito do desfecho da eliminatória. O caminho de um treinador é feito disto, umas vezes ganha-se, outras perde-se; às vezes estamos em cima, outras menos acima; importante é que a carreira seja feita na perspectiva de melhorarmos. Comecei do zero, vim da distrital, e consegui chegar a um grande do futebol português. Já trabalhei três vezes no estrangeiro, ganhei uma competição lá fora e tenho tido um percurso feliz e em que nunca ninguém me dei nada, conquistei tudo o que tenho à minha custa.

Quando chegou ao SC Braga, e perante alguma desconfiança do público por ser a sua estreia na I Liga, afirmou que estava preparado para o desafio…

JP: …Não estava. Quando referi que estava preparado falava em termos do processo de treino, liderança, do jogo, da leitura, estava preparado para isso tudo. Não estava preparado era para lidar com algumas situações que, depois de se chegar a um patamar destes, tem de se lidar, principalmente a imprensa. A imprensa é muito forte neste patamar, em algumas situações falsa, e ai é que nos temos de preparar. Depois da passagem por Braga posso dizer que nunca mais vi programas de debate desportivo e nunca mais comprei jornais desportivos. Passam-se meses em que não abro um jornal desportivo, porque percebi que muita coisa que vem nos jornais é mentira.

“Situação financeira do Farense obrigou a reformulação dos objectivos”

 

Começou a temporada no Farense, clube que já tinha orientado em 2013/14, mas acabou por rescindir contrato em final de Novembro. O que não correu como previsto neste regresso?

JP: O que não correu como previsto foram as situações que aconteceram. Voltei porque acreditava e porque o Farensejp7 é um clube com quem tinha uma ligação forte. O que me apresentaram no início de época quando falaram comigo foi a ideia de lutar pelos lugares de subida, o que não se veio a realizar devido à situação financeira do clube. Os objectivos foram reformulados antes de começarmos a treinar, na própria constituição do plantel, porque havia condicionantes financeiras. Não foi tornada pública essa reformulação dos objectivos e continua-se a dizer que era para subir, o que foi um erro, e depois houve divergências de opinião entre mim e o Presidente. Gosto de ter objectivos definidos e concretizáveis, e a minha ideia não coincidia com a do Presidente. Ele tinha a ideia de subir de divisão e eu achava que não tínhamos condições para isso, derivado de várias situações. Aliás, veja-se a reformulação que o Farense fez agora no plantel, com 6 jogadores, o que mostra a fragilidade que havia para atingir esses objectivos. E nessa situação, havendo divergência e tendo eu ideias definidas nesse aspecto, não fazia sentido continuar. Foi exactamente por isso que se deu a minha saída e não pelos resultados. Quando sai estávamos a 5 pontos dos lugares de subida, não perdíamos há cinco jogos e tínhamos sofrido um golo nesses últimos 5 jogos. Depois tentou-se branquear a situação, porque às vezes é mais conveniente não dizer as coisas como têm de ser. Disse-se que que eu tinha tido um problema com os adeptos, o que é puramente mentira. Sempre respeitei os adeptos do Farense, tenho uma grande admiração e estima pela claque e muito respeito pela massa associativa, que é exigente mas muito próxima da equipa e que quer sempre o melhor do clube. Se calhar porque eu também tinha uma empatia muito grande com os adeptos, tentou-se prejudicar a minha imagem, mas as acções ficam para quem as pratica e as pessoas tiram as ilações que quiserem. Eu não confundo o Farense com as atitudes de algumas pessoas. É um clube que marcou a minha carreia e ao qual ficarei sempre ligado, desejando-lhe as maiores felicidades, tirando quando joga comigo (risos) (ndr: Farense e Mafra encontram-se amanhã, 7 de Fevereiro).

Entretanto aceitou o desafio do Mafra, curiosamente outro clube por onde já tinha passado como treinador em 2010/11. O clube está na zona de despromoção e é a equipa da II Liga com menos golos marcados, acredita ser possível assegurar a manutenção?

JP: É lógico que acreditamos. Vamos fazer tudo para isso e com certeza vamos conseguir porque o Mafra tem todas asjp5 condições para se manter nesta II liga. Tem excelentes condições de trabalho, é um clube sério, que não tem dívidas e cumpre com todas as suas obrigações, dando uma grande estabilidade aos seus jogadores, treinadores e a toda a gente. Como é uma coisa rara no futebol português, é um clube que merece manter-se. Apanhei o Mafra numa situação difícil e, em 5 jogos, empatamos 4 e perdemos 1. Tirando o Sporting B, apanhamos 4 candidatos à subida: Aves, Gil Vicente, Feirense e Portimonense. Queremos sempre ganhar, mas empatar, não podendo ganhar, é um resultado positivo. Somamos pontos estamos a 4 pontos dos lugares da manutenção. Faltam 18 jogos, portanto há muita coisa ainda para rolar, a equipa tem vindo a dar uma boa resposta e ainda no Domingo, com o Portimonense, fizemos um excelente jogo.

Passou por Angola, Qatar e Polónia, tendo até conquistado a Supertaça neste último país. Ao ingressar no Mafra admitiu que planeava fazer um pequeno interregno na carreira para ingressar num estágio no estrangeiro. Pode-nos revelar o que tinha em mente e quais os ensinamentos que considera que poderiam ser adquiridos nesse estágio?

JP: Tinha pensado nisso após a saída um bocado abrupta do Farense, em que fiquei sentido com a situação porque não esperava. A minha saída dá-se depois de um jogo; no dia seguinte eu vou treinar, há uma conversa com o Presidente, dando seguimento a outras que já tinha havido sobre objectivos e plantel, e aquilo morre ali, naquele momento, sem que houvesse indicador nenhum. Tinha preparado sair para fazer uma volta, ir a Inglaterra, Espanha e França, para sentir como se trabalha e fazer a comparação com o nosso trabalho. E há uma coisa que posso referir – estou à vontade para o fazer porque trabalhei fora muito tempo e lido com as pessoas de fora -, nós estamos muito bem conceituados lá fora e a nível de treino somos, na minha opinião, os melhores. Os métodos, a linha de treino e a filosofia do treinador português são admirados lá fora.

E às vezes nós também, olhando para outros contextos, conseguimos ver outros caminhos e perceber até que ponto asjp6 coisas se podem conjugar. Estamos sempre a aprender e eu não tenho medo nenhum de aprender, nem problema nenhum. Na minha carreira sempre gostei muito de vasculhar, andar à procura, para poder depois eu sim, preparar o meu trabalho e melhorar, olhando sempre para o que os outros fazem. Uma coisa é copiar, outra coisa é aprender algo com aquilo que os outros fazem. Houve uma altura da minha careira em que observava muitos treinos, e cheguei a ver treinos de equipas – isto quando já estava na II divisão B – da terceira e da distrital, para ver os contextos das coisas, e aprendi muito com alguns desses treinadores. Eles se calhar nem sabem, porque muitas vezes nem sabiam que eu estava a ver. Quem diz que não aprende ou sabe tudo está completamente errado.

Entrevista realizada por João Lobo Monteiro e Daniel Lima | joaolobomonteiro@gmail.com e daniellima207@gmail.com

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