El Cholo: entre a arte de enganar os ´tubarões´ e a banha da cobra

Uns amam-no pela forma como desafia os ´tubarões´ do futebol europeu, outros odeiam-no pelo estilo de jogo defensivo,
diego-simeone-atletico-madrida roçar o agressivo, que incute nos seus jogadores. Uns vêm nele uma inspiração e encontram no seu ´esforço que não se negoceia´ uma filosofia de vida – o Cholismo -, outros encaram a sua mensagem como mais uma variante da banha da cobra, das que só vão vendendo e enganando os incautos enquanto os resultados durarem. Depois há os restantes: os que não admiram o estilo mas também não o repudiam, reconhecendo o mérito inerente ao seu trabalho. É nestes que me enquadro.

Diego Simeone vai na 5ª temporada no Atlético de Madrid. Quando chegou aos colchoneros, a equipa estava a quatro pontos da descida. Dai para a frente tudo mudou e o clube juntou ao seu palmarés um campeonato espanhol – intrometendo-se na aparentemente impenetrável hegemonia de Barcelona e Real Madrid -, uma Liga Europa, uma Supertaça Europeia, uma Copa do Rei e uma Supertaça Espanhola. Mais importante que tudo isso: devolveu a alma ao clube, a identidade à equipa e a paixão à massa associativa. Este Atlético é inquestionavelmente uma obra de autor a quem, falando de títulos, falta a cereja no topo do bolo: levantar a Liga dos Campeões.

Se na final de 2014, em Lisboa, o Atlético de Madrid não foi superior ao Real de Ancelotti, – apesar de ter estado em vantagem durante um largo período e de só ter sofrido o golo do empate nos descontos – desta feita os Rojiblancos tinham mais pontos a seu favor: o adversário era colectivamente muito inferior (tal como recentemente o Chelsea, em 2012, o Real mostrou que, tendo qualidade individual e beneficiando do sorteio e dos factores externos em determinados momentos decisivos, se pode ter a fortuna de vencer a Champions com uma equipa banalíssima) e chegou a estar encostado às cordas, especialmente na 2ª parte do tempo regulamentar e no 1º tempo do prolongamento.

No entanto, frente a um Real que recuou após o golo marcado e ofereceu a iniciativa de jogo, o Atlético mostrou as dificuldades de quem está muito pouco confortável gerindo a posse de bola diante de equipas que se fecham no seu último reduto. Já se tinha visto o mesmo no duelo dos oitavos-de-final com o PSV, em que os holandeses, mesmo quando reduzidos a 10 no duelo da 1ª mão, não passaram por muitos sobressaltos para travar a organização ofensiva dos colchoneros. A eliminatória, sem golos, foi decidida na marcação de grandes penalidades. Neste caso, o Atlético conseguiu empatar numa combinação pelo corredor lateral, espaços que privilegiam nas acções ofensivas em detrimento do espaço central.

No Giuseppe Meazza, Simeone acabou por ver o sonho fugir exactamente na marcação de grandes penalidades. Para quem chegou à final eliminando as duas melhores equipas do mundo, Barcelona e Bayern Munique, (com sorte ou não, eliminou-as) e teve ascendente no jogo decisivo, só pode sair com o amargo sabor da desilusão. Por outro lado, será justo afirmar que o Atlético pagou o preço de quem joga na expectativa e tem como prioridade anular os pontos fortes do adversário, ao invés de impor o seu estilo próprio na procura da baliza adversária.

Raça, vontade, crer, esforço, sacrifício, esperança, ambição. Todos são adjectivos inúmeras vezes utilizados para descrever este Atlético. Faltam acrescentar outros: criatividade, imaginação, capacidade ofensiva e de gestão da posse de bola ou do jogo com bola. Não é que os colchoneros não tenham qualidade; obviamente que a têm, caso contrário não seriam finalistas da champions duas vezes em três edições. São exímios na transição ofensiva e todos os seus jogadores estão comprometidos com as tarefas defensivas. Têm sobretudo em Griezmann o principal desequilibrador em acções individuais. Mas dá sempre a ideia que, ao adoptar uma postura expectante, está mais perto de não vencer do que do sucesso.

O principal mérito de Simeone está no modo com faz os jogadores acreditarem que, seguindo as suas ideias e modelo de jogo, podem vencer qualquer equipa do mundo. O factor psicológico e motivacional é impulsionado pelos resultados positivos. Fá-lo incutindo aos atletas o espírito de que, como equipa inferior, têm de correr e esforçar-se mais que os opositores. O tal esforço que não se negoceia. A mensagem passa e reflecte-se no rendimento.

Com a mesma estratégia de comprometimento, Mourinho logrou vencer uma Liga dos Campeões ao serviço do Inter de Milão, numa edição em que tiveram extrema dificuldade para ultrapassar a fase de grupos e grande felicidade nas meias-finais com o Barcelona. E Ranieri conseguiu o impensável título no Leicester City da mesma forma.

Será possível ao Atlético, com menor qualidade individual que os rivais, vencer, intrometer-se entre os ´tubarões´, adoptando outro tipo de estratégias e modelos de jogo? No futebol não há verdades absolutas, não existem fórmulas únicas nem um só caminho para se chegar ao sucesso. O que Diego Simeone fez no Atlético – ou continuará a fazer, se se mantiver no clube – poderá não ser replicável noutro contexto ou até não ter sucesso no futuro.

Voltando a Ranieri, o italiano é a melhor prova disso: um técnico que nunca ganhou nada de relevante concretizou, aos 64 anos, quando se pensava que estava na fase descendente da carreira, um dos mais improváveis feitos do futebol mundial. Certamente nesta idade não se tornou melhor treinador nem inovou nos métodos ou modelo de jogo, que nem são (e nunca foram) de grande qualidade. Apenas encontrou um contexto que o favoreceu.

São vários os factores que contribuem para a vitória ou derrota num jogo ou numa competição. Seja como for, acredito que vence mais vezes quem mostra competência táctica e técnica para ter a posse de bola, assumir a iniciativa de jogo e desequilibrar nos processos ofensivos. Algo que numa logica de regularidade, em que se vai diluindo a influência dos factores externos, é ainda mais evidente.

Artigo escrito por Daniel Lima | Daniellima207@gmail.com

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