Portugal: estar na final não ofusca um colectivo sem ideias

Num momento de exaltação nacional, em que Portugal chega pela 2ª vez a uma final de um Europeu, é complicado contrariar a tendência geral de vangloriar tudo o que mexe e de endeusar todos os que que fazem parte da comitiva nacional em França, mas ainda assim a falta de qualidade de processos do conjunto de Fernando Santos é tão evidente que não se pode deixar de associar esta conquista sobretudo a um contexto extremamente favorável e ao ´auxílio´ dos factores externos.

O que se viu hoje frente ao País de Gales volta a comprovar a carência de ideias e a pobreza do futebol praticado. 1º tempo em que Portugal foi incapaz de desposicionar a defensiva contrária e criar uma jogada de perigo. Pior, não conseguiu sequer controlar a posse de bola. Dificuldade imensa para chegar ao espaço central, variar o centro de jogo, aproveitar os apoios frontais ou fazer uma tabelinha digna desse nome. O recurso ´preferencial´ para se procurar o golo passou pelos cruzamentos sem qualquer nexo para a área de Gales, invariavelmente em situações de inferioridade numérica. Desaproveitamento do talento de Renato Sanches, que se torna inofensivo a jogar encostado à linha, e de João Mário, sempre longe de zonas centrais e com poucas opções de passe. Danilo sempre excluído do processo de construção e a ´obrigar´ outro médio a vir buscar jogo, retirando um elemento do espaço à frente da linha da bola. A nível defensivo o excesso de referências individuais a abrir enormes espaços no meio-campo e à frente dos centrais – felizmente não é por aí que Gales ataca -, assim como a prejudicar a capacidade para ser incisivo na transição ofensiva, já que os jogadores não estão em posições definidas no momento de recuperação.

Logo a abrir o 2º tempo, o golo, fruto da qualidade individual de Cristiano Ronaldo no momento em que do jogo em que é o melhor do mundo, a finalização, a desbloquear o que o colectivo não conseguia e dificilmente iria conseguir. A prevalecer a maior valia individual de Portugal face ao adversário. O 2º golo surge de seguida num lance fortuito após mais um cruzamento disparatado. Em 3 minutos, e sem fazer nada de especial para o merecer, Portugal apanha-se em vantagem por 2-0. Dai o marcador ser enganador face ao que realmente se passou no relvado. Muitos dirão que foi um jogo bem conseguido por Portugal e que a equipa mostrou evolução quando não foi nada disso que aconteceu. Depois saltou à vista a capacidade para fechar o bloco e impedir o jogo mais directo, embora pouco criativo, do País de Gales, bem como a incapacidade para tirar proveito do espaço em várias jogadas que, com melhor definição, poderiam resultar em contra-ataques em superioridade numérica.

Pela positiva Portugal tem a forma como a equipa se une no processo defensivo, dando mostras de que os próprios jogadores estão cientes das limitações colectivas e da necessidade de jogar em bloco baixo/médio, inclusive concedendo em vários momentos a iniciativa ao adversário, para chegar ao sucesso. Essa postura esconde defeitos e criou dificuldades aos adversários com que Portugal se deparou até ao momento. Na frente, o talento e a criatividade individual acabaram por fazer diferença – sem esquecer Rui Patrício nas grandes penalidades. Por outro lado, e falando num aspecto extra-relvado, parece existir grande sintonia e solidariedade no grupo, com os jogadores a acreditarem no que lhes transmite o treinador. E essa relação de confiança com as ideais do treinador (ou a ausência de dúvidas e desconfianças) é importante para se vencer. Veremos se estes factores positivos serão suficiente para vencer o Euro, mas não há qualquer motivo para se estar optimista para o jogo decisivo, de grau de dificuldade bem superior do que o encontrado até ao momento, especialmente se o adversário se chamar Alemanha. Mas num jogo tudo pode acontecer e esperemos que aconteça mesmo. Como afirma Ronaldo, sonhar é grátis.

É importante realçar que não se pretende tirar mérito a ninguém nem criticar por se ter prazer em apontar defeitos. Trata-se tão somente da constatação da pobreza de processos que se tem visto em campo e que certamente não se altera com os resultados positivos. A inexistência de competência colectiva significa apenas que se fica mais longe do sucesso. Que mesmo diante de adversários mais frágeis a vantagem é menor e que frente a equipas superiores a derrota é mais provável. Que ganhar ou perder fica mais dependente do acaso e dos factores externos porque não se é capaz de retirar aleatoriadade e caos ao jogo. Não quer dizer que o sucesso não aconteça mesmo sem princípios colectivos de qualidade, apenas desçam as probabilidades. A Grécia venceu assim em 2004, mas poderia-se jogar o mesmo torneio mais 100 vezes que dificilmente voltaria a conquistá-lo.

E é fácil ´desmontar´ o cenário e mostrar o tão volátil que as coisas são. Os heróis de hoje foram rotulados de incompetentes aquando dos 3 empates na fase de grupos (no grupo mais fácil do Euro) e poderiam até ter terminado mais cedo a caminhada se a Hungria tem feito o 4-3 na bola ao poste, se a Islândia não tem marcado no último segundo e colocado Portugal no ´lado bom´, se a Croácia se tem adiantado no marcador no prolongamento quando também enviou uma bola ao poste ou se a Polónia mostrasse mais pontaria nas grandes penalidades. Claro que Portugal também se pode queixar da sorte noutros lances, mas o que isto significa é que Portugal está onde está por detalhes e não pela superioridade exibida face aos adversários. Bastava um destes detalhes pender para o outro lado para Fernando Santos e companhia serem duramente criticados no regresso a Portugal.

Artigo escrito por Daniel Lima | Daniellima207@gmail.com

 

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