Portugal Campeão Europeu: Os Deuses do Futebol falam Português

Final do Campeonato da Europa de Futebol 2016. O cronómetro marca 109 minutos de jogo quando Éder recebe a bola encurralado entre os defesas franceses. Sozinho, sem apoio, faz uso da sua técnica e porte físico para encontrar espaço à entrada da área. Nesse momento, os deuses do futebol uniram-se para realizar um acto de justiça poética. Éder, o mal-amado que ninguém queria entre os 23 eleitos, enche-se de fé e o remate faz com que o esférico entre como uma bala no fundo das redes. Lloris nada pôde fazer para o impedir. Estava escrita a página mais bonita do futebol português pela caligrafia de um homem que soube ultrapassar as ferozes críticas com coragem, humildade, dedicação e capacidade de superação. O golo que lançou a euforia em terras lusas e a incredibilidade em França é o melhor quadro da sua vida profissional: um jogador que subiu a pulso, com mérito próprio, e que atingiu um imprevisto sucesso no meio de um quadro de adversidade.

O Estádio Saint-Dennis foi o palco do culminar de uma conjugação de factores que levou a que Portugal erguesse, pela primeira vez, o título de campeão europeu. Não importa agora estar a repetir as críticas à qualidade colectiva da selecção lusa. O conjunto comandado por Fernando Santos esteve longe, muito longe mesmo, de ser o que melhor futebol praticou na competição. Também estava longe de ser o plantel com mais qualidade do Europeu. Venceu porque à capacidade para perceber as próprias limitações e tentar fazer delas forças juntou a capacidade para tirar proveito de uma inacreditável conspiração cósmica que tinha como objectivo final a glória em Paris. Tirou partido da conjuntura excepcional que se verificou e que só é possível numa prova a eliminar. Replicar o êxito numa competição de regularidade seria impossível.

Em 2004, o Estádio da Luz assistiu ao momento mais traumático da história futebolística nacional. O grego Charisteas marcou de cabeça o golo que ´roubou´ o título de campeão europeu à melhor equipa da competição: Portugal. 12 anos volvidos, o destino quis que os papéis se invertessem. Diante do país anfitrião, e fazendo da defesa a principal arma, a equipa lusa espantou o mundo e vingou não só a derrota em 2004, como os vários e dolorosos dissabores sofridos perante os Les Bleus.

Os Deuses falaram português desde a fase de qualificação e a protecção divina estendeu-se ao longo de todo o torneio. Neste percurso vitorioso, são muitos os momentos em que o nosso fado, tantas vezes cruel e severo, foi estranhamente bondoso com a nação lusitana. Para um povo habituado ao sofrimento, às lágrimas, às agruras e às vitórias morais, sentir que o destino estava do lado nacional só podia soar a brincadeira dos Deuses, daquelas que iria terminar abruptamente e destruir, sem apelo nem agravo, mais um sonho colectivo. A lesão de Ronaldo soou a prenúncio do mal, mas foi apenas um chamamento para a união do grupo. E, aos 90 minutos, o coração bateu forte quando Gignac apareceu frente a Rui Patrício. O poste manteve a chama acesa e levou uma nação a respirar de alívio. Mais do que isso: foi o sinal de que já nada nem ninguém podia impedir a vitória portuguesa. O remate de Éder foi apenas o acto final e o climax de uma história escrita há muito tempo por entidades superiores.

Sem que tivesse procurado a sorte, a sorte veio ter com Portugal. Agora é altura de festejar e de viver a alegria que os portugueses já mereciam após tantos anos a sofrer com as desventuras da sua selecção. Após os festejos a hora será de preparar o futuro com uma certeza: os Deuses dificilmente voltarão a conspirar desta forma e só com maior competência colectiva e investimento nos jovens talentos nacionais se poderá voltar a festejar títulos ao nível das selecções. De outra forma Portugal será apenas uma versão melhorada do epifenómeno que foi a Grécia em 2004: daí para a frente os helénicos não mais lograram ter sucesso.

 

 

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