Considerações tácticas sobre o Portugal – França

Um jogo sem grandes surpresas quanto à abordagem adoptada pelas duas equipas. Portugal entrou em 4-4-2 com as linhas baixas, mantendo o bloco compacto e a não deixar a França explorar o espaço entrelinhas. A França a controlar o jogo embora sem ´sufocar´ a selecção lusa. Mais uma vez se evidenciou a incapacidade dos franceses em encontrarem espaços diante de equipas que actuam mais fechadas e com as linhas próximas, vivendo das acções individuais dos seus jogadores.

A equipa comandada por Deschamps não pressionava na 1ª fase de construção, optando por criar zonas de pressão quando a bola entrava nos médios, fazendo ai uso da capacidade física do seu meio-campo. Mas esta passividade na 1ª fase permitia a Portugal respirar e baixar o ritmo de jogo.

Nos primeiros 25 minutos Portugal teve dificuldades em ´encaixar´ nas marcações e especialmente em gerir a posse de bola. Matuidi e Pogba a receberem quase sempre fora do bloco, com Sissoko a jogar por dentro e a deixar a largura para o lateral-esquerdo Sagna. Também Payet aparecia várias vezes por dentro, embora numa zona mais adiantada do terreno para combinar com Griezmann.

William Carvalho marcava individualmente Griezmann, Nani estava perto de Matuidi e Adrien de Pogba. Os desequilíbrios apareciam nas arrancadas de fora para dentro dos médios franceses – Sissoko em destaque nesse aspecto – e sobretudo do lado esquerdo do ataque da França, com Renato a ser obrigado a compensar ao centro quando Matuidi subia no terreno e deixava de ser seguido por Nani. Quando recuperava a bola, Portugal não conseguia manter a posse porque Renato estava distante do portador e demoravam a chegar a uma zona mais central do terreno e ser opção de passe e João Mário subia no terreno. Nessa altura a posse de bola era de 40% Portugal e 60% França.

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Portugal em 4-4-2 e as marcações individuais no meio-campo. Era quando Matuidi entrava de fora para dentro e deixava de ser perseguido por Nani que obrigava Renato a hesitar entre a marcação a Evra ou fechar o centro do terreno. Percebe-se ainda a atenção constante de Cédric a Payet e que Ronaldo era o único livre destas obrigações defensivas.

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O problema das marcações individuais é este. Sissoko no centro do terreno a apoiar na construção e o arrastamento dos médios portugueses fez com que tivesse uma avenida para progredir sem oposição. Esta foi uma das soluções da França, com Sissoko a surgir várias vezes em xonas centrais e mais recuadas para combinar com Matuidi e Pogba.

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Com bola, Portugal tinha dificuldades em progredir. Wililiam baixava para fazer construção a 3 e muitas vezes só ficava Adrien na zona central. Renato também procurava oscilar entre a faixa e o centro enquanto João Mário subia para garantir presença na frente na frente e permitir a Ronaldo ir buscar jogo a partir da esquerda do ataque. O portador da bola ficava com poucas opções e a solução passava por jogar directo na frente, com a maioria dos lances a perderem-se para os defesas franceses. Estava difícil ultrapassar a linha de 4 do meio-campo da França.

A saída forçada de Cristiano Ronaldo ´obrigou´ Fernando Santos a mexer na estrutura e a alterar o sistema para o 4-1-4-1. A equipa agradeceu a mudança e melhorou na saída de bola. As posições mais definidas dos jogadores no terreno fez com que aumentassem as linhas de passe após recuperação. Com Renato Sanches no meio a conseguir queimar linhas e associar-se melhor com João Mário e Nani – este a servir de apoio frontal -, o conjunto luso passou a estar mais perto da área contrária e reduziu o número de perdas de bola. Adrien esteve bem pior nesse aspecto: se sem bola cumpriu, com ela nos pés raramente decidiu bem ou deu seguimento às jogadas. Defensivamente Renato ´pegou´ em Matuidi e ficou Nani livre na frente.

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Em 4-1-4-1 aumentaram as linhas de passe na zona central ao portador da bola. Com os jogadores mais próximos entre si já era possível trocar a bola e sair a jogar curto desde a defesa até ao ataque. Também a influência de João Mário cresceu na fase de criação ao não estar mais obrigado a subir e ocupar zonas centrais para libertar Ronaldo. Importante a forma como Renato transportava e queimava linhas. Com as posições mais definidas melhorou muito o ataque posicional de Portugal.

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Nesta jogada a bola vai de William Carvalho para Nani, que serve de apoio frontal e deixa para a entrada de Raphael Guerreiro. É possível verificar nesta jogada que Portugal garantia mais presença na frente, embora sem conseguir criar jogadas de verdadeiro perigo.

O 2º tempo começou da mesma forma que terminou a 1ª. Portugal, embora sem atacar a baliza contrária, passou a estar confortável no jogo. A França nunca pareceu capaz de realmente incomodar Rui Patrício, com as oportunidades a surgirem da inspiração individual. Muita passividade dos franceses, que não arriscaram em subir o bloco e pressionar mais alto o portador da bola com receio de comprometer a solidez defensiva.

Faltava capacidade à França para conseguir variar o centro de jogo e beneficiar das marcações individuais para arrastar os jogadores lusos e abrir espaços nas entrelinhas. Os próprios centrais não procuravam avançar e atrair para depois soltar. Com demasiados elementos que pegam na bola e aceleram imediatamente no espaço, faltava quem conseguisse contemporizar para que o esférico chegasse em melhores condições a Griezmann e Payet. Deschamps decidiu então ajudar Portugal e retirou Payet do terreno, colocando Coman.

O jovem de 20 anos até foi protagonista de 2 ou 3 bons lances -inclusivamente o cruzamento para Griezmann falhar, de cabeça, um ´golo feito´ -, mas globalmente o que aconteceu foi que a França passou a jogar menos no espaço central e a apostar mais ainda nas acelerações e na inspiração individual, para além de que Coman que demora mais tempo a libertar a bola.

Na 1ª fase de construção de Portugal a França passou a condicionar mais Pepe e William Carvalho, seguidos de perto por Giroud e Griezmann, e a deixar que fosse José Fonte a conduzir, sabendo que tecnicamente é um elemento menos capaz. No entanto, continuava a pressão exercida a ser muito pouca.

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José Fonte com toda a liberdade para receber a bola pensar a acção seguinte. A passividade com que a França deixava Portugal jogar na 1ª fase de construção permitiu diminuir o ritmo de jogo. A linha média não subia para pressionar mais próxima dos avançados e não forçavam o erro. A França optava por ´tapar´ William e Pepe, deixando Fonte, um jogador com mais limitações técnicas, ter a bola.

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Outra opção que a França podia ter explorado mais vezes e que está relacionada com as marcações individuais de Portugal. Aqui Coman flete para o centro e recebe a bola, vinda do central, completamente sozinho e em condições de virar e enquadrar com a baliza. Os médios portugueses são arrastados pelas marcações, Quaresma não está com o defesa-esquerdo (Evra) e Cédric hesita entre quem marcar. Basta um erro para o sistema de marcações individuais ceder. No entanto, com a saída de Payet, a França optou ainda mais por insistir no jogo exterior em vez de explorar o espaço entrelinhas. Outra forma seria aproveitar o espaço que os defesas-laterais portugueses deixavam nas costas quando faziam ´perseguições´ aos extremos da França. Felizmente nunca foram capazes de ter a criatividade para isso.

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Outro caso raríssimo no jogo e que a França podia ter explorado melhor. O central Umtiti sobe com a bola controlada e confunde as marcações de Portugal. Acaba por fixar João Moutinho e libertar em Sissoko, que remata forte e obriga Rui Patrícia a uma excelente intervenção.

Fernando Santos esteve bem nas substituições que efectuou, já que todas vieram melhorar o rendimento colectivo. A entrada de João Moutinho veio trazer outra qualidade na definição e Éder foi uma referência no ataque que permitiu contemporizar para a equipa subir e ganhar faltas importantes. A passagem de João Mário para o centro do terreno veio permitir ao camisola 10 actuar numa posição onde se confortável e é mais influente.

No final, Portugal teve a fortuna de contar com remate certeiro de Éder numa altura em que o jogo estava equilibrado e a fadiga se notava. Evidentemente que a França se pode queixar da sorte, mas também foi vítima do facto de nunca se ter exposto e de ter permitido ao conjunto luso desenvolver a sua estratégia sem contratempos de maior. E com isso a melhor equipa diminuiu a sua possibilidade de vitória e permitiu a Portugal equilibrar a contenda. A posse de bola mostra isso mesmo: 47% Portugal, 53% França.

Artigo escrito por Daniel Lima | Daniellima207@gmail.com

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