O Rio Ave de Nuno Capucho

Como jogador, Nuno Capucho era um tecnicista, um criativo, um jogador de enorme classe e que tratava a bola por ´tu´. Era daqueles que levada gente ao Estádio só para o ver. Agora, como treinador, parece continuar a gostar de ter a bola nos pés e de privilegiar o futebol ofensivo, a criatividade e o espetáculo.

Extremamente interessante o 1º jogo da época do Rio Ave na República Checa, frente ao Sparta de Praga. Uma equipa personalizada, a querer ter bola e a saber o que fazer com ela, a assumir o risco, a colocar vários jogadores em zonas ofensivas, a procurar explorar o espaço entrelinhas e a procurar ser agressivo na transição defensiva, ainda que os índices físicos típicos desta fase da época prejudiquem a eficácia neste momento do jogo.

Do banco, e mesmo empatado 0-0 fora, Capucho sempre deu o sinal de que o objectivo era marcar um golo e vencer o desafio. Os vila-condenses têm uma excelente modelo de jogo, um plantel com opções e podem ser a grande surpresa esta época. Veremos como a equipa evolui, considerando que obter resultados iniciais positivos (nas primeiras 5 jornadas defronta Porto, Braga e Sporting) é importante para os jogadores e adeptos acreditarem que este processo os leva ao sucesso. Muito bem-vindo este regresso de Capucho à primeira liga, desta feita como treinador que parece ter ideias de grande e que poderá chegar lá mais cedo do que se esperava.

O Rio Ave jogou em 4x4x2 losango e deverá ser este o sistema táctico a adoptar por Capucho, o mesmo a que davaRA1 preferência no Varzim. No meio-campo  Wakaso era o médio mais defensivo, Krovinović estava no vértice mais avançado, Rubén Ribeiro a médio-interior esquerdo e João Novais a médio-interior direito. No centro da defesa estão Marcelo e Roderick Miranda, na direita Eliseu Cassamá e na esquerda Rafa Soares. Os laterais dão boa projecção ofensiva à equipa, garantem largura e são rápidos na recuperação. Na frente estavam Yazalde e Gil Dias, dois avançados muito móveis, sendo que Gil está até mais habituado a jogar a extremo. Como opções para esta época Capucho ainda tem Guedes, Heldon, Filipe Augusto ou Tarantini.

Os vila-condenses a sentirem-se confortáveis com bola, portador com várias linhas de passe e progressão com os blocos juntos. Na 1º fase de construção os centrais a assumirem e a procurarem Wakaso ou Rúben Ribeiro, médio-interior que nesses momentos recuava no terreno para receber. Por vezes tentavam explorar a profundidade, mas sem sucesso, algo que deve ser mais trabalhado. A inexistência de uma referência fixa no ataque fazia com que as bolas longas para os avançados fossem facilmente interceptadas pelo adversário. Faltou capacidade para encontrar soluções ofensivas no último terço no terreno, algo normal nesta fase tão precoce.

O modelo de jogo implica riscos defensivos, já que a equipa não tem receio de subir linhas e são muitos os jogadores à frente da linha da bola e que se envolvem nos momentos ofensivos. Wakaso é uma peça determinante para garantir os equilíbrios, mas algumas vezes ficou demasiado só a proteger o espaço central. Nesta altura é difícil pedir mais, mas é importante que no momento de perda de bola a reacção seja rápida para travar a progressão do adversário, o que nem sempre sucedeu, expondo-se o Rio Ave em demasia. Os avançados têm de apresentar mais agressividade a condicionar imediatamente a construção de jogo. Viram-se ainda erros no quarteto defensivo, com a utilização de referências individuais, muito espaço entre os jogadores e jogadas em que foi patente a hesitação na altura de subir a linha e forçar o fora-de-jogo. Nada de anormal e a margem para melhorar é enorme, até porque os jogadores estavam habituados a jogar mais recuados e a defender mais próximos da baliza

Destaques positivos para Rafa Soares, um jovem internacional sub-21 emprestado pelo FC Porto que demonstra boa capacidade técnica e envolvimento nas acções ofensivas. Faltou-lhe alguma calma no momento de definir, optando demasiadas vezes pelo cruzamento quando poderia ter mantido a posse de bola. Krovinović, croata de 20 anos, demonstrou excelentes pormenores e pode ser também ele uma revelação esta temporada. Rúben Ribeiro também mostrou que será muito útil ao Rio ave nesta ´segunda vida´ no futebol, apesar de ter abusado um pouco dos remates de meia distância. Wakaso a revelar-se muito disponível fisicamente a ocupar o espaço à frente dos centrais. Boa entrada em jogo de Heldon, que deverá assumir a titularidade em detrimento de Yazalde. Cassio muito seguro na baliza.

Pela negativa Yazalde, incapaz de dar sequência às jogadas ou de perceber onde se devia posicionar. O companheiro de ataque, Gil Dias, também não se adaptou à posição, apesar de revelar boa técnica quando tem a bola. Marcelo e especialmente Roderick a terem de melhorar na fase de construção face ao que é exigido por este sistema, tal como Wakaso, que cumpriu sem bola – um ou outro erro de posicionamento – mas terá de melhorar no processo ofensivo.

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Rio Ave na fase de construção com Wakaso e R. RIbeiro a procurar zonas mais centrais para dar linha de passe e assegurar a progressão, com Rafa Soares a assegurar a largura do lado esquerdo. Outras opções passavam por procurar lançar em profundidade ou sair através dos laterais.

 

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Bloco compacto do Rio Ave em organização defensiva, a ocupar apenas dois corredores e a permitir assim a concentração.

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Em transição defensiva ocorreram alguns erros como este, com uma situação de 3×2 em pleno espaço central. Wakaso precipitou-se a sair na contenção e não foi compensado

RA5

O Rio Ave em 4-4-2 losango no momento de organização defensiva, a assumir o risco de manter os 2 avançados e Krovinivic em zonas adiantadas.

RA6

Mais um caso de má abordagem do sector recuado em transição defensiva. Marcelo em marcação individual ao avançado quando a bola é cruzada da direita, o que deu origem a um lance de muito perigo. Deveria ter procurado manter uma posição mais adiantada, forçando o fora-de-jogo.

RA7

Rio Ave com presença na área e a procurar explorar o espaço interior. Sobretudo no flanco esquerdo os vila-condenses mostraram boa dinâmica, criando várias situações de igualdade e até superioridade numérica. Isto foi fruto das subidas de Rafa Soares e do apoio que Krovinovic dava quando a bola entrava nos flancos.

Artigo escrito por Daniel Lima | Daniellima207@gmail.com

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