“Se eu estivesse no banco…”

Ao contrário do que muitos comentadores e adeptos pensam, a influência do treinador tem limites. E não são poucos. Nenhum técnico do mundo consegue controlar todos os aspectos e momentos do jogo, porque por muito que o treino prepare os jogadores para actuarem consoante o modelo de jogo que querem operacionalizar, quando o árbitro apita, os verdadeiros protagonistas são os jogadores. Pouco mais resta ao técnico do que esperar que estes interpretem o que lhes é pedido. A isto junta-se o carácter aleatório e imprevisível do jogo que, por muito que se tente reduzir ao minino, tem sempre um papel decisivo. A bola que bate no poste, o ressalto que dá golo, o remate de longe que entra, a defesa instintiva do guarda-redes, o erro do árbitro,  etc.

Dai que os treinadores não possam ser apontados como culpados de tudo o que se passa no terreno de jogo. A tendência mais fácil é a de lhes apontar o dedo sempre que acontece algo como a inesperada recuperação de 0-3 para 3-3 do Vitória de Guimarães frente ao Sporting. Mas não são eles que jogam. A expressão de Jorge Jesus, numa altura em que ainda estava 2-3, é a melhor prova da impossibilidade de alterar o rumo dos acontecimentos a partir do banco de suplentes. Nada podia JJ fazer quando a equipa, que facilitou e viu-se aflita e surpreendida após sofrer 2 golos de rajada, não conseguia aliviar a pressão do Guimarães. 

Algo de muito semelhante aconteceu ao Milan de Ancelotti na célebre final de Istambul diante do Liverpool. Será o técnico italiano ‘culpado’ da inesperada recuperação dos Reds? Ou o dedo deve ser apontado aos jogadores – ainda para mais experientes – que deram a partida como ganha após o 3-0 ao intervalo?

Isto leva-nos para as declarações de JJ no rescaldo da derrota em Madrid. Se eu estivesse no banco, teria sido mais difícil para o Real Madrid”, disse JJ. Será mesmo assim? Como se viu em Guimarães, os técnicos podem corrigir posicionamentos, alterar estratégias e até transmitir confiança aos atletas a partir dos bancos. Mas não têm nenhum super-poder que lhes permita ter influência sobre tudo e mais alguma coisa que se passe ao longo dos 90 minutos. Os protagonistas são os que estão lá dentro…

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