Ter mais posse de bola não é sinónimo de estar mais perto do golo

No futebol não há verdades absolutas nem uma só forma de se atingir os objectivos.

Como fenómeno extraordinariamente complexo e impossível de prever que é, são vários os caminhos que podem levar ao mesmo fim, dependendo do modelo de jogo preconizado por cada treinador e da forma como os jogadores de determinada equipa o interpretam.

Pensando apenas no processo ofensivo, será que ter o maior tempo possível a posse de bola é sinónimo de se estar mais perto de marcar?

É certo que só há uma bola e só se pode criar situações de finalização e marcar quando está na nossa posse. Mas ao contrário do que muitos dogmaticamente acreditam e defendem hoje em dia, não é verdade que ter mais tempo de posse de bola significa automaticamente estar-se mais perto do golo. Como tudo no futebol, tudo depende de caso para caso e de tudo o que os rodeia.

Vítor Pereira, ex-treinador do Fenerbahce, baseia o seu modelo no controlo do jogo através da posse de bola e na recuperação da mesma em zonas altas do terreno e imediatamente após a perda, de modo a manter o adversário no seu último terço.

É para isso que prepara e estimula as suas equipas.

No entanto, afirmou num canal televisivo no final da época passada que pôs em causa se não seria preferível, num campeonato como o turco – que tem equipas medíocres em organização ofensiva e que, por outro lado, se sentem bastante confortáveis no momento defensivo (sem bola) -, ceder alguma da iniciativa de jogo, recuar uns passos a linha média e defensiva, esperar mais atrás na 1ª fase de construção, convidar o adversário a sair a jogar curto, dando-lhe o espaço para tal, e depois aproveitar os erros cometidos para apanhar o oponente desequilibrado e sair em transição ofensiva.

Porque, referiu, foi precisamente tirando partido da transição ofensiva que o Besiktas, actual campeão, marcou a maior parte dos seus golos na época passada; convidando os adversários a avançarem para aproveitarem o espaço após a recuperação de bola.

Afinal o que é mais vantajoso para chegar ao golo? Procurar ter a bola a maior percentagem de tempo possível ou ceder a iniciativa e deixar o adversário subir no terreno para assegurar que após a recuperação existe o tal espaço para atacar a baliza? Tudo depende do contexto…

Se por um lado ceder a iniciativa pode permitir mais transições ofensivas, tem o risco óbvio de implicar, como consequência directa, abdicar do controlo e ficar mais exposto ao que o adversário for capaz de fazer com bola em zonas mais avançadas do terreno.

Com as mesmas ideias, o FC Porto de Vítor Pereira teve sucesso, o Fenerbahce não tanto. Para a questão em análise, a principal diferença entre os dois estava na competência em organização ofensiva. Com menos qualidade individual ao dispor e incapaz de impor na Turquia a mesma organização colectiva que nos dragões (fruto, provavelmente, de todo o contexto que encontrou), a equipa não apresentava soluções criativas para ´furar´ blocos defensivos compactos. Não conseguia criar os espaços, precisava que eles já lá estivessem para ser aproveitados. Isto fazia com que os adversários, sem bola, gerissem os jogos com relativo à-vontade mantendo o bloco baixo. E para o Fenerbahce os empates não bastavam.

A este respeito, veja-se o jogo da Alemanha frente à Irlanda do Norte no Euro 2016. Partida de sentido único, com os alemães a dominarem por completo. Tanto tempo em ataque posicional e o golo que decidiu a partida acabou por surgir de uma situação em que a selecção da Irlanda do Norte consegue estender.-se um pouco no terreno e permite uma recuperação a meio-campo. O bloco germânico foi subindo gradualmente ao longo da jogada e, quando a posse é recuperada, estão 5 jogadores à frente da linha da bola para preparar o ataque.

 

Mais posse de bola e mais jogo no meio campo contrário não é o mesmo que mais golos. Mas pode querer dizer aumentar as probabilidades de vencer.

A Espanha do Mundial de 2010 é um exemplo de como a utilidade da posse de bola vai para além dos golos. Em toda a fase a eliminar da competição (4 jogos), os espanhóis venceram por apenas 1-0. Já na posse de bola o domínio foi esmagador. Então para que queriam os espanhóis tanto a bola se o pecúlio se resumia a 1 golo por jogo, num total de 4 golos e com 2 a surgirem de bola parada? Porque fazendo-o de modo magistral, controlavam os jogos, diminuíam a imprevisibilidade, reduziam drasticamente as possibilidades dos adversários marcarem – basta ver que não sofreram nenhum golo nesses 4 jogos – e aumentavam as suas de vencer, fazendo uso das melhores armas que tinham: a competência colectiva, a capacidade de tomada de decisão e a técnica individual dos jogadores.

Artigo escrito por Daniel Lima | Daniellima207@gmail.com

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