Vilaverdense FC: A melhor geração do futebol feminino em Portugal ainda está para vir

Em Vila Verde, distrito de Braga, mora uma equipa da primeira liga de futebol feminino que faz da formação a sua maior força. Fomos perceber como o Vilaverdense FC está a viver esta fase de crescimento da modalidade em Portugal e comprovamos que a melhor geração de jogadoras está aí a chegar’.

Maria Leonor tem 13 anos feitos de fresco e uma resposta na ´ponta da língua´ quando lhe perguntam o que quer ser quando for grande: ´jogadora profissional de futebol´. Vestida com as cores do Vilaverdense FC, é a mais nova atleta do clube. Mas nem a baixa estatura ou a evidente diferença física face às restantes colegas, com quem partilha os treinos, lhe tiram o atrevimento com a bola nos pés. A técnica refinada e a vontade indomável levam a que os elementos da equipa técnica lhe vaticinem um futuro brilhante pela frente, assim se continue a dedicar. “Um dia gostava de chegar à selecção”, diz com o brilho nos olhos característico de uma criança que sonha acordada com o dia em que os adeptos num estádio lotado se levantam para a ovacionar.

O desejo de uma mulher fazer do futebol a sua actividade profissional, que há uns tempos não passaria de uma utopia em Portugal, é hoje uma possibilidade bem real e partilhada por várias crianças, jovens e até pelas menos jovens. Nos últimos anos, a realidade do futebol feminino no país conheceu uma significativa evolução e a visibilidade da modalidade aumentou exponencialmente com a presença de quatro clubes da Liga NOS (Sporting, Braga, Belenenses e Estoril) na recém-criada ´Liga de Futebol Feminino Allianz´ e com o recente feito histórica da selecção A feminina, que garantiu um inédito apuramento para o Europeu 2017 após ter derrotado a Roménia num playoff dramático.

«Seja menino ou menina, todos têm condições para se dedicarem ao futebol»

“Os clubes interessam-se por pôr as meninas a jogar à bola desde cedo e os pais também percebem que é um desporto para todos e não apenas para os rapazes”, diz Carlos Valadar, que cumpre esta época a segunda temporada enquanto técnico da equipa feminina do Vilaverdense FC, que actualmente ocupa a 5ª posição da Liga Allianz. “Seja menino ou menina, hoje todos encontram condições para que se dedicarem ao futebol com sucesso”.

De postura imperial entre os postes, que alterna com uma agilidade e velocidade surpreendentes nas saídas, Daniela Araújo é quem habitualmente defende as redes do Vilaverdense. Tem 18 anos, é internacional desde 2015 e representa as sub-19. “Estou a ver esta evolução com muitos bons olhos”, confessa. “É o desporto que amo. Sei que é difícil, mas tenho ambições de prosseguir uma carreira no futebol”. Começou a jogar aos 13 anos e, à semelhança do sucedido com muitas colegas, foi obrigada a contornar a desconfiança inicial dos pais. “Desde pequena que adoro futebol, apareceu uma equipa perto de minha casa e foi assim que convenci os meus pais e comecei a jogar”.

Formação: O melhor está para vir

Se o foco mediático está nas seniores, é analisando os escalões de formação que se encontram os principais motivos para se acreditar nos horizontes risonhos da modalidade. Antes mesmo de a selecção A ter conseguido o apuramento para o Europeu, já nas sub-17 (2013) e sub-19 (2012) essa proeza tinha sido atingida.

É caso para dizer que o melhor está definitivamente para vir. “As jogadoras que vêm aí têm uma qualidade completamente diferente, muito superior, o que é fruto da evolução do processo de treino e do investimento da FPF nesta área”, refere o técnico.

Que as jogadoras mais novas tenham outras competências é nada mais do que a consequência lógica das melhores condições de treino e competição que encontram. “Na altura jogávamos em pelados, sem coletes, nem bolas ou sequer água”, conta Leandra Pereira, de 18 anos, remetendo aos tempos em que ingressou no futebol, com 11 anos. Hoje em dia, a avançada titular do Vilaverdense e das sub-19 sente as mentalidades a mudarem ´todos os dias´. “Os clubes esforçam-se para nos dar condições e são os próprios pais a incentivar as meninas mais novas a jogar e a inscrevê-las nas escolinhas”.

A importância de atrair patrocinadores

A Federação está a ajudar os clubes na criação de academias e iniciou este ano um programa de promoção da modalidade junto das crianças do ensino básico, o ´Girls Challenge´, que passará pelos 18 distritos de Portugal. Para a próxima época está também em equação a criação de um campeonato nacional de sub-17. “E posteriormente acredito que o patamar seja avançar com o campeonato sub-15 e assim progressivamente”, adianta Carlos, que aplaude esta aposta e o ´esforço excepcional´ que tem contribuído para elevar o patamar da formação, ao ponto de, conta, esta ter sido inclusivamente elogiada em torneios internacionais.

Ainda assim, tantos pontos positivos não fazem com o caminho a percorrer seja só facilidades. “O crescimento está ai e em grande escala, agora é preciso mostrá-lo a patrocinadores atractivos, a pessoas que queiram envolver-se no projecto e percebam que está a crescer, para temos suporte para levar isto a bom porto”, refere Carlos.

Aumento da competitividade obriga Vilaverdense a ´dar um pulinho´

O Vilaverdense está na primeira liga feminina desde a temporada 2010/2011. O objectivo, assumido pela direcção no início desta temporada, passa por lutar pelos cinco primeiros lugares da classificação, mas o aumento da competitividade da competição obriga a um esforço adicional para se manterem no topo. “A entrada de novos clubes obriga-nos a pensar o projecto, a dar um pulinho nas condições que as jogadoras têm de ter”, explica o técnico.

Com um plantel extremamente jovem, não é de estranhar que o Vilaverdense tenha os seus maiores sucessos nos escalões jovens, vencendo por duas ocasiões o campeonato nacional de juniores. Repetir as vitórias será tarefa árdua devido ao poder de atracção dos ´clubes grandes´ sobre as jogadoras. “Estão aqui oito atletas da selecção nacional, quatro dos sub-17 e outras quatro dos sub-19. O Sporting entrou este ano com uma forte componente de formação, o Braga terá de o fazer na próxima época. O que temos de fazer é consciencializar os pais da excelente qualidade do nosso trabalho de base e reforçarmo-nos nos clubes à volta”, refere.

A ´morder os calcanhares´ a equipas com maior poderio financeiro na Liga Allianz, fica a promessa por parte do treinador do Vilaverdense de lutar pela melhor classificação possível, ainda que a juventude da equipa tenha já provocado alguns dissabores – como as recentes duas derrotas consecutivas quando tiveram à mão de semear a possibilidade de subir ao 1º lugar – obrigando a um esforço redobrado para ´incutir uma cultura de vitória´. “Podem contar com grande qualidade individual e técnico-táctica, união e raça. Essa é a imagem de marca do Vilaverdense, desde a primeira à última gota de suor, estamos aqui para ter a nossa visibilidade no país”. Porque, como diz o slogan do clube, ´o Vila é uma nação´.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *