Sobre o processo de tomada de decisão

O desenvolvimento do futebol tem progressivamente desviado o enfoque do individual em detrimento de uma  maior importância atribuída aos processos colectivos para se alcançar o sucesso. O que distingue os jogadores de top dos restantes não é a força física, a altura, a velocidade, a resistência ou a capacidade de choque. Nem sequer a qualidade técnica individual que possuem. As capacidades condicionais e a técnica são apenas as ferramentas que o cérebro tem à disposição para executar as acções que imagina.

A verdadeira diferença reside na qualidade da tomada de decisão em prol desse colectivo. Na inteligência com que se interpretam as situações, na criatividade com que se resolvem os problemas, na forma como se percebe o contexto e se decide em conformidade com o que é melhor para a equipa, enquadrado no modelo de jogo definido pelo técnico.

Um episódio da série ´Breakthrough´, da National Geographic, aborda precisamente o tema da tomada de decisão e os estudos desenvolvidos nessa matéria. Ainda que o programa não esteja relacionado com futebol, podemos facilmente tirar conclusões no que ao desporto-rei diz respeito.

Nas quatro linhas, este segmento mostra a importância que o conhecimento do jogo tem na tomada de decisão intuitiva – tão necessária num jogo onde não se dispõe do tempo e espaço para se ter todos os dados à disposição antes de se efectuar uma acção – e a forma como os jogadores conseguem, interpretando os contextos irrepetíveis e de elevada complexidade e imprevisibilidade que o futebol proporciona, ter a liberdade para alterar as suas decisões até ao último momento.

«Temos uma capacidade limitada para realizar novas atividades de forma focalizada e concentrada. Lembre-se de quando aprendeu a conduzir ou se já tentou falar uma nova língua. Estas coisas requerem concentração intensa e podem ser exaustivas. Mas há uma altura em que se torna automático. As ações tornam-se hábitos e pode executá-los sem pensar. São hábitos que nos ajudam a desenvolver a nossa percepção e as nossas habilidades intelectuais e motoras. A educação é basicamente a aquisição de hábitos.» José Antonio Marina (2016)

Como neste lance, em que Bernardo Silva percebe que o facto de o defesa não o acompanhar até à linha de fundo fez com que o contexto subitamente se alterasse, abrindo-se uma possibilidade de cruzamento para Falcão, e altera rapidamente a sua decisão de efectuar o passe para o ala.

A aprendizagem representa então um papel absolutamente decisivo, na medida em que é esse processo de interiorização e entendimento do jogo que vai permitir que se procurem intuitivamente as melhores soluções, do mesmo modo que nos desviamos de um sinal de trânsito no passeio sem que para isso seja preciso recorrer ao consciente.

Jogar, treinar, experimentar e perceber, através da tentativa-erro, como as acções realizadas levam ao sucesso ou insucesso é o método adequado para se melhorar a qualidade da tomada de decisão. Dai o papel do feedback posterior às acções, para corrigir ou incentivar comportamentos, e do estudo que permita incutir conhecimentos tácticos aos atletas. A prática permite acumular memórias que, sendo altamente influenciadas pela aprendizagem – a memória que um jogador tem do que considera ser uma jogada em que teve uma boa decisão pode, à luz dos novos conhecimentos adquiridos, ser reinterpretada como uma decisão errada -, permite ao cérebro recorrer a esse ´arquivo´ valioso.

«Em atividades como o jogar futebol, o controlo não é necessariamente hierárquico e cognitivo, tendo o cérebro como comandante. Frequentemente agimos por percepção direta e com controlo heterárquico. Neste caso, agimos por percepção-ação, sem que haja uma mediação da ação motora por via das representações mentais e, portanto, do cérebro. Quando nos confrontamos com situações de intensificação da pressão espacial-temporal (e cada vez isso acontece no futebol), ou seja, quando dispomos de menos tempo e espaço para agir, não temos tempo para percepcionar-analisar e pensar numa solução para agir. Há que agir rapidamente. Neste caso, por exemplo, as nossas cadeias musculares deixam de ser meros órgãos reprodutores de ordens do cérebro, para passarem a ter o comando da ação.» Júlio Garganta (2016).

«A inteligência é o fator fundamental? A inteligência específica. Sabes que há gente que na escola não funciona mas a jogar futebol, cuidado. Entendem tudo. Nós temos muitas inteligências. Há gente que cá fora não diz duas palavras mas lá dentro são inteligentíssimos. O que te entusiasma tu também aprendes melhor.», Vítor Pereira (2017).

Demasiadas vezes os jogadores não atingem um nível mais elevado porque não são estimulados a pensar o jogo. Não percebem o porquê de lhes ser pedido para agirem de determinada forma, o que faz com que as suas acções sejam demasiado automatizadas e desprovidas de intencionalidade ou originalidade. Não são capazes de inovar nem de procurar os diferentes caminhos que cada contexto possibilita ou impossibilita. É a diferença entre apenas executar e pensar.

«Se quiser experimentar e inventar, tem que se melhorar o nível técnico dos próprios jogadores. E isso significa que se queremos que o futebol continue a evoluir devemos continuar a desenvolver a forma como treinamos os jogadores. O jogador moderno tem que aceitar que não é suficiente saber jogar. Tem que entender o jogo e, infelizmente, isso é o que falta em muitos casos.» Paco Seirul.lo (2016)

A título de exemplo, atente-se expoente máximo que existe a nível mundial: Leo Messi, um jogador frágil fisicamente mas que é para muitos considerado o melhor de sempre. Grande parte das acções que realiza não têm nada de particularmente exigente a nível técnico – isto é, que não possa ser replicado por outros jogadores de elevado nível. O que já ninguém replica é a capacidade de interpretar melhor e mais rápido que os restantes, decidindo depois em conformidade com a análise que efectua e beneficiando de ter ao dispor as armas para operacionalizar essas ideias. O que separa Messi dos outros não está nos pés; está em cima, na cabeça, na capacidade que tem em escolher o caminho mais indicado para a equipa num ´universo de possibilidades´ apenas limitado pelo modelo de jogo; nos pormenores que fazem com que ultrapasse um adversário com um simples movimento de corpo ou entregue a um companheiro nas melhores condições possíveis.

Mas quando falamos em tomada de decisão e criatividade, é importante realçar que estas são componentes tão importantes com bola como sem bola; nos processos ofensivos e defensivos. Saber ocupar espaços, fechar ou abrir linhas de passe, antecipar movimentos do adversário, dar coberturas, arrastar marcações, etc, todos essas acções exigem conhecimento táctico e capacidade de leitura e antecipação. Jorge Jesus indica o caminho do futuro.

Artigo escrito por Daniel Lima | Daniellima207@gmail.com

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