Escolas Academia Sporting: Uma formação com selo de qualidade

‘O ´Grande Círculo’ acompanhou uma formação ministrada pelos Coordenadores Técnicos do projeto Escolas Academia Sporting (EAS), Rui Reis e André Lourenço, na EAS – Braga. Transmitir a metodologia de treino definida para as EAS e assegurar a manutenção dos padrões de qualidade são os principais objetivos destas sessões. Sobre os desafios da formação em Portugal, Rui Reis aponta como essenciais o respeito dos técnicos pela realidade da formação de base e a necessidade de aumentar o tempo de recreação das crianças.

Foi um dia de calor e de trabalho intenso na EAS – Braga. Na sequência de um conjunto de reformulações ao nível do corpo técnico, a escola recebeu a visita dos Coordenadores Técnicos das EAS para uma formação sobre a metodologia de treino definida para este projeto. À vertente prática, onde os coordenadores tiveram oportunidade de analisar os treinos do corpo técnico de cada escalão (sub-7; sub-9; sub-11 e sub-13), seguiu-se a componente teórica e a correção dos erros detetados.

“Não queremos que as escolas sejam completamente iguais – não gostamos de fotocopias nem acreditamos nesses modelos – mas queremos que tenham, pelo menos, alguma identidade que vá sendo semelhante entre elas, respeitando a diversidade de treinadores, miúdos e localidades. Dai que o contacto direto tenha de ser quase diário.”, afirma Rui Reis.

É frequente ouvirmos que a diferença está nos detalhes e esta formação é uma excelente prova disso mesmo. A uma troca de ideias exaustiva sobre um dos princípios específicos do ataque, a progressão, e qual a melhor forma de o ensinar às crianças, segue-se uma mensagem em tom de alerta de Rui Reis, enquanto segura na mão um dossiê com a metodologia de treino que deve ser seguida por todas as EAS, de acordo com o escalão de formação.

“Ninguém aqui inventa nada, isto já foi tudo inventado há muitos anos”, repete aos técnicos da EAS – Braga. “Não estou a falar de nada que não se possa encontrar numa pesquisa no google”. A ideia dos coordenadores é simples de perceber: aproximar os treinadores dos conteúdos definidos pela coordenação e evitar que estes improvisem e se desviem da linha delineada, comprometendo os padrões de qualidade.

“Uma das muitas coisas que o Sporting faz bem e ninguém contesta é a formação de jogadores de futebol. E nessa área, quando decide abrir as EAS, está a abrir mão daquilo que é uma das suas vertentes mais ricas. Isso obriga a ter controlo e cuidado ao fazer esta expansão de marca”, explica.

As EAS, destinadas a crianças dos 4 aos 15 anos, têm mais de 10 anos e nasceram com três objetivos principais: a formação desportiva, a expansão da marca e a descoberta de talentos. Com presença de norte a sul do país e, a nível internacional, em todos os continentes – com exceção da Oceânia -, o projeto é inclusivo, mas está também preparado para ´fazer um filtro´ e promover os que se destacam. “Já aproveitamos mais de 100 atletas das EAS para o Sporting. Atualmente estão mais de 50 atletas nas equipas Sporting provenientes das EAS e temos um atleta na equipa profissional que foi jogador das EAS, o João Palhinha”, refere Rui Reis.

Para quem não seguir a carreira de jogador de futebol, passar pelas EAS está longe de ser tempo perdido. Para além de praticarem exercício físico e de absorverem os valores associados aos desportos coletivos, há uma aprendizagem que não se perde. “Tentamos que os jovens possam, no futuro, ter critério e qualidade ao ver um jogo de futebol, sem fazerem comentários apenas por fazer. Quem já teve esta formação de base terá uma visão um bocadinho diferente e temos esse feedback dos pais. É giro perceber que os miúdos estão a ver coisas que nem os pais, que vêm futebol há muito mais anos, conseguem destacar”, afirma.

Formação e necessidade de mais tempo de recreação: “Os treinadores têm de respeitar a realidade da formação de base”

Sobre o panorama da formação em Portugal, Rui Reis admite que as EAS não são alheias aos problemas de treinos desajustados nos escalões base, salientando que essa questão tem sido alvo de reflexão por parte da coordenação.

“Estamos com uma tendência geral de tornar as coisas cada vez mais profissionais, mesmo com miúdos de 6 ou 7 anos. Vemos treinos padronizados e altamente complexos, com níveis de exigência muito interessantes – mas muito interessante para uma equipa de juniores ou seniores. Isso assusta-nos porque a nossa preocupação nas EAS é exatamente a contrária, a de respeitar o que temos à nossa frente, muitas vezes só isso. Miúdos de 6 ou 7 anos, uns gordinhos, outros aptos, outros menos aptos…”.

O que os coordenadores pretendem é que os treinos altamente elaborados, especializados e bem pensados, mas totalmente desadequados face à realidade do que é a formação de base, sejam substituídos pela…recreação, seguindo os princípios da simplificação da estrutura complexa do jogo.

“Queremos é que façam muita recreação”, diz. “Muitas das vezes é com surpresa que os técnicos das EAS ouvem da coordenação que devem fazer o inverso do que fazem, mais jogos lúdicos, para liberarem os miúdos e incutirem o gosto pela modalidade”.  Acima de tudo, continua, está a tentativa de explicar às crianças algo muito simples: como se joga um 1×1, um 2×2, um 3×3 ou um 4×4. “Quando entenderem isto, através de um conjunto de princípios que vamos definindo como linhas orientadoras, o ensino torna-se muito mais rico”.

Outro dos problemas abordados por Rui Reis diz respeito ao facto de, ao fenómeno de maior formação dos técnicos, com mais conteúdos e aprendizagens – administrada por associações de futebol, federações, entidades privadas ou universidades -, coincidir uma atividade física cada vez mais diminuta das crianças, que substituem o tempo que passavam nas ruas pelo tempo passado em casa com outros aliciantes mais sedentários como a televisão, telemóvel ou jogos de computador.

“Agora os meninos passam menos tempo na rua, menos tempo em liberdade, sem regras. As crianças terem um repertorio motor mais diminuto é outro grande problema que obriga os técnicos a adaptar o seu conhecimento”.

Gerir a ambição pessoal dos técnicos, que treinam escalões de base mas sonham em comandar um plantel de elite, com a necessidade de delinear treinos ajustados ao que os miúdos precisam é um desafio que, segundo Rui Reis, se resume a uma palavra: respeito. “É uma questão de respeito entre a minha motivação pessoal e ambição enquanto treinador, e o que tenho à minha frente na realidade hoje em dia. E isso é que às vezes não é respeitado e torna as situações difíceis.”

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